Beethoven´s 9th Symphony

31 de out de 2017

Desde certo tempo eu e a Jess já estávamos querendo conhecer a Sala São Paulo. Além de um passeio cultural, uma experiência mesmo. No começo desse ano de 2017 aproveitamos para assistir ao concerto de estreia da temporada 2017 com a Nona Sinfonia de Beethoven, que por sinal, é uma de nossas maiores paixões.

Queremos compartilhar tanto nossa paixão pela música de Beethoven [ok., eu amo todas suas músicas, enquanto a Jess gosta mais de uma ou outra; mas ambos amamos a Nona Sinfonia], assim como também comentar a nossa experiência de visitar e conhecer a Sala São Paulo - OSESP.




Quem ouve a Nona Sinfonia de Beethoven certamente escutará mais do que a força dos graves e os agudos repentinos que se desenvolvem nos quatro movimentos da música, mas escutará a própria condição humana que pelas mãos do artista traduz a impossibilidade de escuta devido à sua surdez por uma outra escuta, mais profunda, a saber, de dar voz à uma humanidade que sonha em existir.

Escutar a música de Beethoven já traz imagens como a descrita acima, mas nada se compara a sua apresentação em orquestra. Não à toa essa música é sinal de grandes controvérsias e disputas. Sua força tem , por um lado, apelo revolucionário (quem não imagina o final do terceiro movimento e o início do quarto e último movimento, como sendo a manifestação de vitória da justiça sobre a injustiça, da paz e felicidade entre os irmãos de todo o mundo sob esse mundo sofrido e injusto que vivemos - tanto Beethoven como nós ainda hoje -  tornando em imagem as palavras do coro que clama pela fraternidade mundial das pessoas); e de outro lado, também tem seu apelo de uma conciliação forçada (como quando escolhem a última parte da música como hino da comunidade europeia que ainda não pôde cantar a real fraternidade).

Para quem gosta de música, é inegável o valor artístico dessa música. Para aqueles que conhecem um pouco de Beethoven e conhecem as suas sinfonias é instigante a interpretação de que a Nona Sinfonia incorpora, nos três primeiros movimentos, a retomada de suas 8 sinfonias anteriores, deixando o quarto e último movimento como gran finale, demonstrando a portentose do gênio de Beethoven.

Mas além de nosso interesse pela Nona de Beethoven, vale a pena comentar a experiência que foi irmos conhecer a Sala São Paulo - OSESP.


A VISITA À SALA SÃO PAULO

Fomos à estação Júlio Prestes, a estação que fica colada com a Sala São Paulo para quem pretende ir de metrô/trem. E vale a pena comentar que a estação é a autêntica experiência que se pode fazer hoje em dia de se presenciar como era o transporte público há 30 ou 40 anos atrás. Impressiona que as fotos da estação há três décadas atrás não é muito diferente da estação hoje em dia. Até que tem sua beleza a arquitetura do centro histórico, mas também, convenhamos, que em termos de conservação de patrimônio histórico, deixamos muito a desejar.

Saindo da estação nos deparamos com o lado triste da São Paulo de 2017, muitos moradores de rua em situação deplorável, perambulando pelas ruas - pois a Cracolândia é logo ali - e com um cheiro horrível de mijo pairando no ar. De um lado mendigos nas ruas fumando crack, deitados em mantas sujas; de outro, pessoas com medo de andar por ali.

Essa triste realidade se contrasta com o que vimos na sala São Paulo, gerando uma experiência antropológica. Seguindo na calçada da estação Júlio Prestes, em poucos minutos entrarmos na Sala São Paulo - OSESP, em um corredor arborizado e meticulosamente perfumado. São dois mundos. E é claro que há um estacionamento por trás, nos fundos, onde a maioria das pessoas que vão à OSESP utilizam, de modo que nem passem pela cenas lamentáveis de barbárie cotidiana que é a pobreza do lado de fora e miséria humana, em contraste com a opulência representado no interior da Sala São Paulo.

Na sala de concerto, ao escutar a Nona Sinfonia e olhar para o público disposto sem seus devidos lugares, surgiu uma interessante reflexão entre Jess e eu sobre a relação social da organização da sala de concertos na História. Criada, originariamente, para a estratificação e divisão das classes sociais, onde o palco era destinada a estratos mais populares, e o camarote era destinado à nobreza, fazia sentido (mesmo que criticável) naquela época; e as classes se comportavam como tal: a plebe, o povo com suas manifestações espontâneas e a nobreza com toda sua etiqueta. Mas quando estávamos na Sala de Concerto, percebemos que no Brasil tal modo de se portar é inexistente. As pessoas que pagaram mais de R$ 300,00 para um ingresso no camarote não tinham postura - para não falar de outro sentido de classe -, ficando de modo desleixado, em conversas, mexendo em seus celulares (talvez para esperar o tempo passar), mostrando que estavam lá por qualquer motivo que não a Música, e demonstrando que estar lá, para estes, deveria ser muito mais a pura vontade de gastar seu dinheiro, sabe-se lá porque, talvez por gastar mesmo. Vai saber. Nem classe podemos dizer que tem a "nossa" classe social mais abastada financeiramente.




Voltando à música de Beethoven, e com toda essa experiência, ouvir músicos talentosos apresentando, ao vivo, a Nona Sinfonia foi maravilhoso. O nosso coração se agitava no mesmo ritmo dos graves e agudos e se emocionava com o coro e as vibrações que ocupavam os espaços da sala.

Talvez seja muito significativo que, com tudo isso, fosse justamente o desejo latente da Nona Sinfonia, clamando pela fraternidade universal que ecoava figuradamente para além dos muros daquela sala, como uma mensagem na garrafa. Ou talvez a música seja só música? Maybe, maybe.


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